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Planta carnívora do cerrado captura e devora nematoides

Exemplar da espécie 'P. minensis' encontrada no cerrado brasileiro. (Foto: PNAS / Divulgação)  Setas mostram grão de areia (maior) e verme (menor) dentro de uma folha em imagem obtida por microscopia eletrônica. (Foto: PNAS / Divulgação)

Uma planta brasileira (foto à esquerda) usa um mecanismo para capturar e devorar  nematoides no cerrado de Minas Gerais, segundo recente  estudo divulgado na publicação científica “Proceedings of the National Academy of Sciences”. Rafael S. Oliveira e Caio G. Pereira da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carlos E. Winter e Daniela P. Almenara da Universidade de São Paulo (ICB/USP) e colaboradores da Austrália e Estados Unidos assinam o artigo.

Ao iniciar o estudo, o grupo queria descobrir se algumas características das plantas do gênero Philcoxia e o fato de habitarem local muito iluminado e com solo pobre em nutrientes são suficientes para classificar essas espécies como carnívoras. Essas espécies são exclusivas do território brasileiro.

A suspeita do grupo também foi levantada pela presença de nematoides no subsolo local que convivem ao lado das folhas grudentas das plantas, que formam uma espécie de armadilha para esses vermes de 300 micrômetros de comprimento, impossível de serem vistos a olho nu.

Na pesquisa, a equipe optou por analisar a espécie P. minensis, típica de uma pequena faixa de areia na Serra do Cabral, no centro do país. Este tipo de vegetação é conhecida como campos rupestres, segundo Rafael Oliveira. “Nós classificamos a planta como carnívora no trabalho, já que mostramos que ela libera enzimas chamadas fosfatases usadas na digestão dos vermes”, explica.

Mas a grande novidade do estudo sobre a espécie mineira é o mecanismo que ela usa para capturar os vermes. As folhas subterrâneas liberam um líquido viscoso, que faz os grãos de areia do solo grudarem na superfície da planta. Esse processo (foto à direita) era desconhecido em outras espécies vegetais.

Para saber se a planta tinha mesmo adquirido os nutrientes dos nematoides, os pesquisadores usaram nitrogênio-15, uma versão mais “pesada” do elemento químico mais abundante na Terra. Os vermes com o material foram oferecidos como “alimento” às plantas e, após 24 horas, 5% do nitrogênio das presas já se encontrava dentro das folhas. Um dia depois, o percentual subiu a 15%.

Pedaços de vermes também foram encontrados dentro das folhas, tanto nas plantas estudadas em herbários como naquelas analisadas no habitat original. A atividade da planta sugere que os vermes foram digeridos pela própria planta e não decompostos antes por microrganismos necrófagos.

“Essas armadilhas para nematoides com folhas subterrâneas são as principais novidades científicas desse trabalho. A análise das folhas de P. minensis mostra que o alimento obtido a partir das presas são vitais para a sobrevivência da planta, que cresce em um solo pobre em nutrientes”, afirma Rafael Oliveira.

“Plantas precisam absorver nutrientes de animais mortos, saber atrair e capturar a presa para serem classificadas como carnívoras. Elas representam apenas 0,2% das espécies vegetais que possuem flores. Suas folhas possuem concentrações maiores de elementos como nitrogênio, potássio e fósforo do que as de plantas comuns”, afirma o cientista.

Outras duas espécies do gênero Philcoxia também podem ser carnívoras, já que apresentam características parecidas com as encontradas em P. minensis: bahiensis e goiasensis, nomes que fazem alusão ao local onde os vegetais foram encontrados (Bahia e Goiás).

Mario Barra (Globo Natureza, SP)

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