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Cresce o valor da divulgação científica no mundo.

Editor de Ciência do Financial Times há duas décadas, o jornalista britânico Clive Cookson acredita que a principal razão para que  os temas científicos se tornassem mais familiares ao público e o noticiário de ciência ganhasse mais qualidade está em uma mudança de atitude dos próprios cientistas, que perceberam a importância da comunicação. Atuando há mais de 30 anos na cobertura dos temas de ciência e tecnologia, Cookson participou recentemente do seminário “Ciência na Mídia”, promovido pela Fapesp em sua sede, em São Paulo, quando concedeu entrevista que segue reproduzida em parte.

Ag. FAPESP: Como tem evoluído a cobertura jornalística sobre ciência? Resp: Apesar de existirem muitos sites de ciência, as pessoas ainda continuam obtendo a maior parte de suas informações sobre o que está acontecendo no mundo científico por meio da mídia tradicional: jornais impressos, revistas, TV e rádio. Mas sou muito otimista, porque, olhando com essa perspectiva de 30 anos, percebo que os cientistas estão se tornando muito melhores na tarefa de se comunicar com a mídia.

Ag. FAPESP: O que mudou nessa relação, da perspectiva dos cientistas? Resp: Eles estão se tornando muito mais abertos. Perderam o medo do contato com os repórteres. E acredito que se trate de algo até certo ponto generalizado. Aqui no Brasil, percebi que os cientistas são muito abertos.

Ag. FAPESP: Qual pode ter sido a razão para essa transformação? Resp: Os cientistas perceberam – certamente nos Estados Unidos e Europa, mas acho que no Brasil também – que é mais provável conseguir investimentos públicos e auxílios para fazer suas pesquisas na medida em que se tornam bons comunicadores. Na Grã-Bretanha, os conselhos de pesquisa incluem explicitamente a comunicação dos resultados científicos como um dos critérios para conseguir investimentos. De modo geral, podemos dizer que você tem mais facilidade para conseguir o investimento se  estiver preparado para comunicar. Os pesquisadores sabem que a ciência como um todo terá mais apoio público se os cientistas gastarem um pouco de tempo e esforço para falar com jornalistas.

Ag. FAPESP: A percepção do público frente à importância da ciência também tem mudado? Resp: Minha impressão é que o conhecimento sobre ciência em meio ao público geral melhorou sim. Ainda não é o suficiente, mas, em geral, a população está mais alfabetizada em ciência que há alguns anos atrás. As pessoas têm mais intimidade com temas e termos centrais no mundo científico. Até certo ponto, a internet contribuiu com isso, mas não sei se há grande potencial para melhorar muito mais, porque na rede também temos muito ruído e desinformação.

Ag. FAPESP: Os jornalistas procuram fazer a ciência mais atraente para o público, mostrando principalmente os resultados de sucesso e deixando em segundo plano o processo de produção da ciência. Com isso, não se corre o risco de mistificar a ciência junto ao público? Resp: Tem toda razão, esse é um problema absolutamente fundamental na relação entre jornalismo e ciência. No noticiário, não há tempo nem espaço para descrever todos os passos da produção da ciência, mostrando ao público que se trata de um processo difícil, pontuado de dificuldades e fracassos momentâneos. Só se conseguiria dar ao público uma educação científica se fosse possível acompanhar o trabalho por meses a fio no laboratório e, geralmente, isso é impossível.

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