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‘Agricultura orgânica x tradicional’ segundo F. Reinach

A agricultura orgânica versus o método de cultivo tradicional

Fernando Reinach

A produção orgânica de vegetais ocupa 1% de toda a área plantada no planeta. Os outros 99% são cultivados utilizando os métodos tradicionais. Mas, se você perguntar aos consumidores se preferem um tomate orgânico – cultivado sem pesticidas, herbicidas e adubos químicos – ou um produzido de maneira convencional, provavelmente a estatística se inverta: 99% (eu inclusive) preferiria o tomate orgânico. Será que a humanidade não deveria adotar de maneira definitiva a produção orgânica?

Aparentemente, a metodologia orgânica é superior do ponto de vista ambiental: não polui os rios, preserva o solo e é mais saudável. Mas, existe outro lado da questão, que é a produtividade por área cultivada. Nas últimas décadas, a humanidade descobriu que o planeta não é capaz de alimentar um número infinito de seres humanos. À medida que cresce a população mundial, cresce a área utilizada para produzir alimentos, biocombustíveis e celulose. Cada hectare dedicado a satisfazer as necessidades humanas é um hectare a menos coberto de florestas, cerrado ou outros ecossistemas naturais.

E aí vem o dilema: como alimentar os quase três bilhões de bocas humanas que vão ser acrescentadas à população mundial nos próximos 50 anos? Aumentando a área plantada ou a quantidade de alimentos produzida nas áreas cultivadas? É neste contexto que a produtividade dos diversos métodos se torna importante. O tomate orgânico pode ser melhor, mas quanto maior seria a área cultivada se toda produção de tomate fosse orgânica?

Uma equipe de cientistas analisou 66 estudos independentes contendo 316 comparações entre as produtividades obtidas empregando-se métodos convencionais e orgânicos. Para serem incluídos na comparação, os estudos deveriam ser pautados por rigor científico e as áreas consideradas deveriam ter sido certificadas por órgãos internacionais. Os resultados demonstraram que, na média, a produtividade por hectare obtida com métodos orgânicos é entre 20% e 25% menor. Em nenhum caso, foi superior à produtividade obtida com a agricultura convencional. Mas, a boa notícia foi que, em muitos casos, a diferença mostrou-se pequena, chegando a 10% no caso da soja e do milho. Em outros casos, como nos vegetais usados em saladas, a produtividade com métodos orgânicos é muito menor, chegando a 30%.

Esses resultados são animadores, pois muitos defensores da agricultura tradicional palpitavam que a produtividade obtida utilizando métodos orgânicos seria metade da convencional. Porém, infelizmente isso não resolve a questão. Mesmo que a humanidade decida adotar o cultivo orgânico – e consequentemente aumentar a área cultivada, mas se libertando da ameaça dos produtos químicos -, outros aspectos do problema precisam ser analisados. Os autores do estudo alistam alguns deles. Um é o custo dos alimentos produzidos pelas duas formas de cultivo e seu impacto no problema da fome no planeta e nos níveis de emprego na agricultura. Outro é a sustentabilidade ambiental de cada forma de cultivo no longo prazo e em grande escala (se você cultiva alface sem adubo químico, usando esterco como adubo, a sua produção de alface depende do rebanho bovino).

O que fica claro é que a comparação entre métodos produtivos não é simples, pois não depende de uma única variável. Vai ser necessário desenvolver metodologias capazes de comparar variáveis complexas e um modelo em escala global. O que é melhor para a humanidade, um tomate orgânico mais caro, que ocupa uma área agrícola maior, mas que não implica no uso de agroquímicos e emprega três pessoas, ou um tomate convencional, mais barato, produzido em uma área menor, mas que utiliza insumos químicos e emprega uma pessoa? Dada a complexidade das comparações necessárias é pouco provável que no curto prazo sejam obtidos dados suficientes para fazer um confronto rigoroso. Mas, será que a Terra aguenta esperar?

(*): outros dados sobre os estudos citados constam do artigo ‘COMPARING YIELDS OF ORGANIC AND CONVENTIONAL AGRICULTURE’, disponível na revista Nature, v. 485, p. 229, 2012.

Transcrito de ‘O Estado de S.Paulo’ de 27/5/2012, como matéria relevante.

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Uma Resposta
  1. Rohger Castilhos disse:

    Caro Fernando Reinach,

    eu gostaria de acrescentar alguns pontos e questionamentos que, acredito, devem ser levados em conta.

    Só a Bayer Agrosciences, investe cerca de U$ 600 MM / ano em pesquisas para desenvolvimentos de seus produtos da linha agroquímica, imagine a Dupont, Syngenta, Dow, Monsanto somadas. Levanto este dado para dizer que se metade desta verba toda fosse investida em pesquisas para controle biológico de pragas e doenças, nutrição orgânica e os diferentes segmentos necessários a uma produção de menor impacto ambiental, teríamos no mínimo a mesma quantidade de alimento ou mais, do que é produzido agora. Porém, os interesses econômicos estão muito acima de qualquer política de saúde.

    Outro ponto que deve ser lembrado é o fato de que temos 1 bilhão de famintos no planeta e, por coincidência, temos 1 bilhão de obesos, tem algo errado nesta conta, será que não se produz o suficiente mesmo?
    Excesso de arroz, trigo, feijão, milho, soja no mercado faz os preços baixarem. Mas então, se a excesso, porque dizem que não há produção suficiente sem agrotóxicos?

    Se os fabricantes de agrotóxicos investem tanta verba em pesquisas para resolver os problemas do agricultor, por que não resolvem então? Todo ano os problemas com pragas e doenças aumentam, pragas secundárias tornam-se primárias e ainda surgem novas. Ao que se vê, o problema não está sendo resolvido e está longe de se resolver, o que está acontecendo é justamente o contrário, quanto mais biocidas no sistema, mais pragas e doenças aparecem.

    Temos que levar em conta também o marketing do produto orgânico. Vale mais por ser orgânico, não por ter produção mais onerosa, já existe tecnologia suficiente para reduzir os custos de produção. Quem tem dinheiro paga por uma comida mais saudável, por um carro com freio ABS, bolsas de ar, direção hidráulica. É a mercantilização da comida, da água, da terra, da vida.

    Obs. Não se precisa de todo rebanho bovino para produção de adubo orgânico, na verdade, o esterco de melhor qualidade para produção de fertilizantes é o das fêmeas em lactação e só com as que temos no Brasil é possível fertilizar a lua. Com o esterco de uma única vaca saudável e bem nutrida, é possível tratar milhares de hectares.

    Abraço.

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