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Destruição anunciada de experimentos em Rothamsted reacende a discussão sobre transgênicos na Europa.

Com o título e manchete acima, editorial da revista Nature de 10 de maio reacendeu a discussão sobre o destino das pesquisas européias com cultivos geneticamente modificados (GM), mais uma vez ameaçado com a anunciada invasão e destruição de experimentos de avaliação de trigo transgênico em Rothamsted, por militantes do movimento Take the Flour Back. Leia abaixo o texto já traduzido ou clique aqui para acessar o texto original em inglês.

Pesquisadores de Rothamsted (Hertfordshire, Reino Unido), talvez a estação de investigação agrícola mais antiga do mundo, passaram anos se preparando para seu mais recente experimento, destinado a provar a utilidade de um trigo geneticamente modificado (GM), que emite um feromônio de alarme potencialmente capaz de promover redução na infestação de pulgões. E estão  ansiosos pela colheita desses cultivos experimentais, mas, muito tensos, porque manifestantes contrários às culturas GM prometeram protestar no dia 27 de maio, invadindo e destruindo as parcelas dos ensaios.

E isso tudo acontece quando ainda se tenta recuperar a reputação das plantas GM na Grã-Bretanha, e em grande parte do continente Europeu, dos fortes ataques que começou a sofrer a partir do final da década de 1990. Na Alemanha, a rotina de destruição das culturas GM por manifestantes na última década fez com que os cientistas de lá simplesmente deixassem de se interessar em realizar experimentos com tais materiais vegetais.

Os pesquisadores de Rothamsted bem que tentaram conquistar o público com uma campanha em que explicavam o que estão tentando fazer e por quê. Dizem que, neste caso, são os verdadeiros ambientalistas, pois, se a cultura modificada funcionar, haverá redução na demanda por inseticidas prejudiciais ao ambiente. Todavia, depois que os manifestantes anunciaram seus planos “descontaminar” o site de pesquisa da instituição, os cientistas passaram a tentar sensibilizar os seus adversários alegando que deveriam “reconsiderar sua posição antes que seja tarde demais e que os muitos anos de trabalho a que se dedicaram sejam destruídos para sempre”. Com isso tudo, até o presente momento, o impasse continua. O experimento com o trigo GM em Rothamsted permanece, mas também a intenção dos manifestantes de destruí-lo na data anunciada.

Este tipo de protesto poderá ter conseqüências relevantes. A BASF, gigante alemã na área de químicos, anunciou que irá deslocar suas atividades com plantas transgênicas da Europa para os Estados Unidos, em parte devido à percepção de contínua oposição às culturas GM na Europa. E embora os agricultores de várias outras partes do mundo tenham tomado gosto pelas culturas GM, na Europa, com algumas exceções, tal não tem acontecido. Tal postura ‘européia’ de desinteresse pela novidade tecnológica pode estar equivocada, pois a adoção de colza GM resistente a herbicidas, por exemplo, reduziu o uso destes por agricultores na América do Norte, com benefícios ambientais; da mesma forma, o emprego de algodão GM resistente a pragas propiciou redução no uso de agrotóxicos. No entanto, as razões para a hostilidade contra a modificação genética na Europa são claras. Um mal-estar justificável se formou a partir da colocação de que, pelo uso de materiais GM, a condução das culturas ficaria muito dependente de modelos determinados pelas grandes empresas agroquímicas, ao lado de preocupações sobre possíveis efeitos adversos sobre a saúde humana decorrentes do uso da nova tecnologia.

Mas, com a população do mundo chegando aos 7 bilhões e crescendo, a rejeição da modificação genética das culturas por motivos tecnicamente espúrios pode representar ameaça futura ao próprio ambiente que se pretende proteger. Para alimentar uma população de possíveis 9 bilhões de pessoas em 2100, vamos precisar mudar a maneira de produzir a nossa comida, otimizando-a. Nesse sentido, evocar métodos antiquados de produção e idealizar a agricultura orgânica não serão instrumentos suficientes, nem irão resolver o problema. A modificação genética por si só também não irá fazê-lo, mas pode ser uma ferramenta útil, crucial até, e parece ingênuo, portanto, opor-se a ela por razões sentimentais ou ideológicas.

Culturas geneticamente modificadas poderiam causar reduções nos usos de pesticidas, herbicidas e fertilizantes e prover maior tolerância a condições climáticas extremas. Porém, é verdade que estamos ainda na fase inicial de desenvolvimento desta tecnologia. E existem algumas preocupações legítimas, como a possível infiltração de resíduos de material geneticamente modificado no ambiente em que se realizam as suas avaliações experimentais. Mas, destruir experimentos tais como aquele de Rothamsted antes que importantes questões ainda pendentes possam ser respondidas afigura-se mais do que mera ação de vandalismo local, é imprudência em uma escala global.

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