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Nature: crescimento de biocombustíveis protelado no Brasil

Nature | News  –  Growth of ethanol fuel stalls in Brazil

[Matéria opinativa publicada na Nature de 27/11/2012, de autoria de Claudio Angelo. O original em inglês pode ser acessado clicando-se na imagem acima, de Rickey Rogers/Ag. Reuters. O texto em português segue logo abaixo.]

Crescimento de biocombustíveis protelado no Brasil

“Um novo momento para a humanidade.” Foi como ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, descreveu o boom do biocombustível do seu país em março de 2007. Naquela época, o Brasil foi o sucesso emergente do etanol combustível, sua produção só perdendo para a dos Estados Unidos. A fermentação dos açúcares da abundante cana de açúcar cultivada no país permitiria a produção de combustível motor capaz de reduzir as emissões de dióxido de carbono e, em vista disso, muitos viram o Brasil como um modelo de como o mundo poderia se libertar de sua dependência de petróleo sem perda significativa de postos de trabalho ao longo desse novo caminho.

Cinco anos depois, todavia, a previsão de Lula já se revela nebulosa. Biocombustíveis estão caindo em desgraça no mundo, pois seus críticos defendem que a destinação de milhões de hectares de terras bem qualificadas à agricultura para as chamadas “culturas de combustível” causará inevitável elevação dos preços dos alimentos e que os benefícios climáticos advindos da ampla utilização de biocombustíveis seriam bem mais modestos que o estimado inicialmente, na melhor das hipóteses. Mas essa piora na expectativa tem sido especialmente aguda no Brasil, onde políticas governamentais têm agravado os efeitos da recente crise econômica global. O consumo interno de etanol líquido deste ano foi 26% menor do que no mesmo período em 2008. Quarenta e uma de cerca de 400 usinas de etanol de cana do país fecharam durante esse tempo. O preço do álcool na bomba anda tão alto que, na maioria dos estados, é mais barato encher o tanque de carros flex com misturas de gasolina que contêm cerca de 20% de etanol. A mudança para combustíveis fósseis, combinado com o rápido crescimento do número de carros nas estradas, tem agravado a poluição da cidade e causado crescentes emissões no setor dos transportes, com pico de cerca de 170 milhões de toneladas de CO2 em 2011, superior aos cerca de 140 milhões de toneladas em 2008.

A montanha-russa do etanol do Brasil é exemplo preocupante do que pode acontecer quando o clima e o planejamento energético colidem com a tomada de decisões econômicas. Tudo começou com a crise econômica de 2008, que estancou novos investimentos no setor, justamente quando ele estava se expandindo rapidamente, e passou a aprofundar-se em dívidas. Em vez de desenvolver plantios com novas variedades, a indústria de certo modo regrediu, insistindo no cultivo de cultivares de cana mais velhas e menos produtivas e os rendimentos médios despencaram de 115 toneladas por hectare em 2008 para 69 toneladas este ano. Combinado com duas más safras/colheitas, isto forçou o Brasil a importar 1,5 bilhões de litros de etanol de milho dos Estados Unidos nos últimos dois anos.

Mas o golpe decisivo veio quando o governo decidiu congelar os preços da gasolina e do diesel para manter a inflação sob controle, deixando os biocombustíveis menos competitivos. Na mesma noite em que a atual presidente Dilma Rousseff leu o discurso de encerramento da “Conferência Rio + 20”, em junho – o acordo final que prometia eliminar gradualmente os subsídios dos combustíveis fósseis — o governo disse que iria reduzir um imposto federal de combustível para zero. “Temos tirado empregos da agroindústria, estagnado o crescimento e o ar das nossas cidades piorou por razões de controle da inflação,” diz Luiz Horta, pesquisador de bioenergia na Universidade Federal de Itajubá. Enquanto isso, o governo tem tentado estimular a economia com reduções de impostos sobre a venda de carros novos. Isso, combinado com o custo do etanol puro, fez com que “a percentagem de álcool em nossa matriz de combustível de transporte caísse de 55% em 2008 para atuais 35%”, diz André Ferreira, do Instituto de Energia e Ambiente, um grupo de estudos em São Paulo.

De acordo com Antônio de Pádua Rodrigues, diretor técnico e presidente interino da UNICA, associação da indústria de cana-de-açúcar do Brasil, o governo sabe que a situação é insustentável. Ele prometeu à indústria que os preços dos derivados de petróleo vão subir ano que vem e que a mistura de etanol subirá de 20% a 25%, o máximo permitido por lei. Mas, vai demorar para a indústria recuperar-se da má situação atual e a tendência, para os próximos dois anos, é de que o etanol continue escasso e caro, dizem Rodrigues e Horta.

Agora, o Brasil espera para tocar em uma nova fonte de biocombustíveis: etanol de segunda geração, produzido a partir da celulose ‘resistente’ em caules de plantas. A celulose é difícil de quebrar e fermentar, mas diversas instituições nos Estados Unidos estão em vias de conseguir produzir o etanol celulósico comercial — por exemplo, usando enzimas especializadas em quebrar as moléculas de celulose de cadeia longa — e o Brasil não quer ser deixado para trás. Em dezembro do ano passado, o BNDES lançou uma linha de crédito de 1 bilhão de reais (US$ 481 milhões) para estimular a pesquisa e o desenvolvimento em biocombustíveis de celulose e outras tecnologias avançadas relativas à cana de açúcar. O Centro de Tecnologia da Cana de Açúcar, uma organização patrocinada pela indústria canavieira com sede em São Paulo, tomou um empréstimo de 357 milhões de reais para construir uma usina de etanol celulósico no próximo ano, na qual se usariam resíduos vegetais não aproveitados, resultantes da fermentação convencional da cana-de-açúcar. “Nós poderemos duplicar a produção de combustível por hectare, quando a tecnologia estiver plenamente desenvolvida”, diz Oswaldo Godoy, um gerente de projetos na organização.

A empresa brasileira de pesquisa agropecuária (EMBRAPA) também está jogando o seu peso sobre a bioenergia. Seu Presidente, Maurício Lopes, um geneticista, que assumiu o cargo em outubro passado, comprometeu-se a reforçar a pesquisa sobre a tecnologia de biomassa e duplicar o financiamento da empresa para essa área, que hoje está em modestos 24 milhões reais por ano. “Eu quero acreditar que o estado atual do setor de etanol seja uma questão temporária”, diz ele. Lopes diz que o Brasil será “imbatível”, uma vez que a tecnologia celulósica está ainda amadurecendo. “Nenhum outro país tem a logística que temos aqui, ou o número de espécies vegetais diferentes das quais se pode obter etanol.” Mas o etanol celulósico não será uma solução rápida, diz Horta. “Nada deve competir com o etanol convencional, de cana de açúcar, até 2050”.

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