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Orgânicos e transgênicos podem conviver, afirma especialista

Placa indica cultivo de transgênicos no Centro de Tecnologia Canavieira, em Piracicaba, no interior de São Paulo. Botânico suíço defende que orgânicos e transgênicos podem conviver em harmonia no campo e, ainda, preservar o meio ambiente

A “disputa ideológica” entre os defensores da agricultura orgânica e os  simpatizantes dos transgênicos emperra a preservação ambiental, defende o botânico Klaus Ammann. O pesquisador suíço afirma ser a biotecnologia importante ferramenta para a conservação da biodiversidade, do mesmo modo que é uma saída para a produção sustentável de alimentos. Em visita recente ao Brasil, concedeu entrevista ao site UOL, cujo excerto segue abaixo.

Qual o futuro da biotecnologia na lavoura? Ou os avanços estão restritos aos laboratórios?

K. A. – Existem ótimos exemplos de avanços, inclusive no Brasil. O novo feijão resistente ao vírus do mosaico dourado, desenvolvido pela Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], já está aprovado pela CTNBio e deve chegar ao mercado nas próximas safras. Outros países também pesquisam variedades de arroz e trigo resistentes à seca e a inundações, por exemplo. Esses transgênicos já estão em fase de testes e podem ser liberados em poucos anos. Além disso, o arroz dourado encontra-se em um estágio avançado de aprovação nas Filipinas. O OGM ganhou este nome graças à sua cor amarelada proveniente dos altos níveis de betacaroteno, precursor da vitamina A. Esse alimento é a principal fonte de nutrientes das famílias de vários países do sudeste asiático e a carência dessa vitamina é a principal causa de cegueira em crianças.

E a que passo estamos de produzir alimentos saborosos sem deixar de serem saudáveis? Como a ciência pode ajudar nisso?

O projeto HarvestPlus já desenvolveu vários cultivos enriquecidos com nutrientes como zinco e vitaminas que estão quase prontos para lançamento. A biotecnologia já desenvolveu diversos alimentos com maiores quantidades de nutrientes. Alguns exemplos são o feijão e sorgo enriquecidos com ferro; mandioca, batata-doce e milho enriquecidos com vitamina A; além de arroz e trigo enriquecidos com zinco. Infelizmente ainda há receio, e, por conta disso, recai sobre esses alimentos um excesso de regulamentação.

Como a produção do futuro pode ajudar a erradicar a fome mundial sem prejudicar a biodiversidade? 

Esse é, de fato, um grande desafio para a agricultura, especialmente àquela realizada com métodos pouco eficientes. Mas, há vários fatores que precisam ser levados em conta. A agricultura pode ser uma ameaça à biodiversidade, seja ela transgênica ou não. Entretanto, com a maior produtividade e a racionalização no uso de defensivos químicos conseguidos graças à adoção de transgênicos no campo, há mais chance de preservar a biodiversidade com os OGM. Assim, os transgênicos não são uma ameaça ao meio ambiente, e sim uma ferramenta para protegê-lo. Então, deveríamos abolir a disputa ideológica entre agricultura orgânica e a agricultura baseada em biotecnologia. São estratégias diferentes que podem conviver juntas, desde que haja compreensão mútua sobre os seus respectivos princípios.

“Não se sustenta a posição de que os transgênicos são uma ameaça à agricultura orgânica. Tampouco é aceitável classificar agricultores orgânicos como pessoas de pensamento retrógrado. O fato é que a agricultura mais produtiva e praticada em áreas menores é apenas uma das ferramentas para resolver a problemática da fome. É preciso reestruturar nossas fazendas, desenvolver estratégias cada vez mais amigáveis de interação com o meio ambiente e tornar a logística e a produção de energia mais eficientes.

Nessa lavoura do futuro haverá espaço para todos os cultivos, ou alguns serão banidos?

Há certamente espaço para todos os tipos de cultivos, desde que haja empenho em prol da coexistência e respeito ao conhecimento ancestral dos pequenos agricultores sobre as centenas de variedades crioulas (que têm características locais muito específicas) já existentes. Não é correto associar a expansão das culturas geneticamente modificadas à eventual redução da ocorrência dessas variedades. Eu acredito que a preservação das variedades crioulas depende de trabalho de melhoramento genético voltado às necessidades dos agricultores que as utilizam e das localidades onde são plantadas. Com a biotecnologia é possível introduzir também nessas variedades genes de interesse, para conferir resistência a herbicidas, pragas e, em futuro próximo, melhorias nutricionais e resistência a estresses abióticos (seca, solos salinos e inundações). Há espaço para todos os cultivos e todos os sistemas de produção no futuro.

O argumento da coexistência (entre cultivos convencionais e transgênicos) não ser possível já foi refutado por centenas de estudos que abordam a questão da transferência de pólen e dispersão de sementes. Enquanto se respeitar as distâncias regulamentares de plantio, não haverá problemas. A própria Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) não diferencia transgênicos e não-transgênicos em suas recomendações para a prática de uma agricultura sustentável. Seria tolice, portanto, barrar o uso de cultivos geneticamente modificados quanto eles têm se provado seguros.

Na sua opinião, quais países ainda estão atrasados na questão da legislação sobre biossegurança? E como isso afeta a produção de alimentos e/ou científica mundial?

A situação é particularmente preocupante na Europa. A região tem uma legislação abrangente, moderna e voltada ao desenvolvimento de produtos e aplicações, a exemplo das legislações canadense, norte-americana e de alguns outros países. Mas, na prática, muitos países criam dificuldades à adoção da biotecnologia, o que, naturalmente, reduz os investimentos em pesquisas. O desenvolvimento de variedades de soja e milho na Europa, por exemplo, está 50 anos atrasado em relação a outras partes do mundo. Isso obviamente não faz sentido. O consumidor europeu já se alimenta de produtos geneticamente modificados há anos, sem que uma única dor de cabeça tenha sido registrada.

O que você conhece da Lei de Biossegurança brasileira? O Paraná, maior produtor de milho do país, questionou há anos a eficácia e o controle da lei nos cultivos transgênicos.

O que posso dizer é que a legislação brasileira é eficiente o bastante para possibilitar o progresso científico. Citei o feijão resistente ao mosaico dourado, desenvolvido integralmente por uma instituição pública de pesquisa, o que ilustra bem o avanço do país no que se refere à ciência e à inovação.

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