Performancing Metrics

O libelo de Dyna: até quando o preconceito ?

Há muito tempo, são conhecidas históricas polêmicas protagonizadas por figuras de destaque do mundo das ciências em vista de diferenças de opinião sobre assuntos ou temas impactantes. Entre outros, são exemplos clássicos as disputas ocorridas entre cientistas sobre o heliocentrismo – o que levou à morte alguns deles, inclusive, durante a Inquisição – e a teoria evolucionista proposta por Darwin. Por piores que tenham sido alguns de seus desdobramentos, tais confrontos foram de certo modo conduzidos com justiça, ocorrendo amplo debate entre os contendores.

Por outro lado, situações de tratamento desigual, de preconceito ou mesmo de negligência nos meios acadêmico e científico também já sucederam – e ainda acontecem – e estas não devem ser toleradas, devendo ser denunciadas, combatidas e eliminadas. No âmbito da Nematologia, especialidade desdenhada no final do século XIX e início do século XX, tornou-se famoso o libelo publicado pelo eminente nematologista Nathan Cobb em 1931. Cansado de ler tantos erros sobre as características dos nematoides nos livros-textos de Zoologia Geral e de Biologia da época, Cobb redigiu esse manuscrito de forma extremamente agressiva, alistando em detalhes o grande número de equívocos cometidos em relação aos nematoides e a omissão dos autores frente aos sérios danos que causavam a animais e, principalmente, a plantas cultivadas; isso, sem falar das pesadas críticas que dirigiu a tais zoólogos e biólogos.

Pois bem, há mais de meio século, no mínimo, outra situação de tratamento injusto vem ocorrendo na área científica (incluída a Nematologia), mais precisamente no setor editorial, observando-se flagrante preconceito em relação aos pesquisadores do hemisfério Sul – o chamado Global South – quando submetem seus manuscritos à publicação em muitos periódicos internacionais. Isso sempre houve e qualquer cientista/nematologista brasileiro que atuou dos anos 1960 em diante viveu esse drama: a enorme dificuldade, ou barreira quase intransponível, de se publicar artigos como autor único ou como primeiro autor nas revistas mais celebradas; era bem complicado… Já a presença de um pesquisador bem conhecido, do dito “primeiro mundo”, entre os autores abria portas à aceitação e publicação do trabalho, quase sempre este figurando como o líder da equipe. E tal deformação, lamentável, persiste ainda hoje.

Tal qual Cobb há quase um século, a jornalista da Indonésia, Dyna Rochmyaningsih, especializada na cobertura da área científica, vem de publicar na prestigiosa revista Nature uma “carta desabafo” denunciando tal prática abusiva (até com evidência irrefutável), que persiste a permear no meio científico/editorial, contaminando-o e depreciando-o. É texto de “lavar a alma” aos que têm sofrido na pele tal preconceito, digno de ser lido/traduzido e guardado, mesmo que venha só a servir, no futuro, para mostrar a indignação que essa situação motivou. Clique na imagem acima e confira a carta em PDF!

Você pode receber todas as mensagens assinando nosso RSS 2.0 feed. Você pode deixar uma resposta, ou voltar para a página principal.
Deixar uma resposta

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*