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Preciosidades: o que você não sabia de Jobert e Göldi

Os adeptos da Nematologia de Plantas, em todo o mundo, logo no início das atividades na especialidade aprendem sobre a grande importância dos nematoides de galha e, inevitavelmente, tomam ciência de alguns fatos históricos a respeito da criação do gênero Meloidogyne. Entre estes, como regra, se incluem menções aos clássicos trabalhos de C. Jobert e E. A. Göldi sobre a incidência de Meloidoginose em cafeeiros do Rio de Janeiro, publicados em 1878 e 1887. Nenhuma novidade no que concerne a esses fatos, mas, há aspectos sobre esses dois naturalistas e as duas publicações que poucos conhecem.

Clément Jobert, francês natural de Lyon, tem biografia algo obscura. Especialista em fisiologia animal, na verdade sonhava com carreira de arquiteto. Acabou se tornando um dos vários cientistas europeus convidados a vir ao Brasil pelo Governo Imperial para realização de observações científicas sobre a flora e fauna nacionais. Durante os anos 1870, percorreu o país de Norte a Sul, permanecendo a maior parte do tempo nos estados do Amazonas e Pará. Na região amazônica, coletou farto material de peixes, entre eles exemplares que acabaram constituindo a população-tipo da segunda espécie descrita no gênero Symphysodon, dos conhecidos acará-discos. Publicou artigos sobre órgãos sensoriais de mamíferos diversos, inclusive humanos, sobre o sistema respiratório de peixes e de crustáceos terrestres e sobre órgãos visuais de crustáceos marinhos. Também, foi o primeiro autor europeu a estudar e divulgar a composição do poderoso veneno curare, utilizado pelos índios ticuna. Em meio a tantas andanças e já próximo de seu retorno à França em 1878, durante passagem pelo Rio de Janeiro, investigou, atendendo aos então chamados “barões do café”, doença que atingia cafezais do interior fluminense causando grandes perdas. Desse estudo, resultou sua pesquisa nematológica “pioneira”, publicada ainda em 1878. Outras interessantes facetas dessa histórica figura podem ser conferidas lendo-se o item “The second discus” contido no livro “The history of discus fishes”. Para isso, basta clicar na imagem acima!

Emil A. Göldi (= Emílio A. Goeldi), como Jobert, era europeu (suíço), de formação científica eclética e também veio ao Brasil em meados da década de 1880 a convite do Governo Imperial. Teria longa carreira no país, inicialmente no Rio de Janeiro e, mais tarde, na região Norte, retornando à Europa apenas no início do século seguinte. Realizou, nesse período, entre outras, pesquisas sobre insetos e, principalmente, aves. No Rio de Janeiro, a partir de 1885, desenvolveu exaustivo estudo sobre o declínio dos cafezais locais, dando continuidade ao trabalho iniciado por Jobert anos antes. Seus impressionantes resultados – que iam da descrição do agente causal, um nematoide nomeado Meloidogyne exigua, a recomendações de controle do patógeno – foram submetidos à publicação nos Arquivos do Museu Nacional na forma de extenso relatório técnico. A impressão do trabalho se completou em 1887, mas o periódico não tinha ainda data prevista para lançamento do volume que o continha. Buscando divulgar logo seu estudo, Göldi cuidou de enviar separatas do artigo a vários dos mais renomados cientistas da época em diferentes partes do mundo. Mais cuidadoso ainda, já em 1888, vendo que a publicação demoraria a ocorrer, tratou de submeter o manuscrito, em versão bem mais concisa (clique na imagem acima para acessar o PDF), à revista alemã Zoologische Jahrbuecher Systematique, conseguindo que o artigo – Der Kaffeenematode Brasiliens (Meloidogyne exigua G.) – fosse publicado já no início de 1889. Embora tenha passado despercebido à maioria dos nematologistas por longo período, houve alguns, como Thorne (1949), que citaram esse trabalho e nele se basearam para corroborar a validade do gênero Meloidogyne e da espécie-tipo, M. exigua. Como se vê, de bobo Göldi não tinha nada, pois, a publicação formal de seu artigo no periódico nacional só foi acontecer em 1892! (Colaboração: Ricardo M. Souza)